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Mostrando postagens de outubro, 2020

O menino que sabia ler o céu

  O menino, que tinha menos de dez anos, deu um salto da cadeira ao mesmo momento que levantava uma das pequenas mãos: Eu sei, professora! Eu sei ler o céu! Como um ensaio de corrida, veio em minha direção e, puxando-me pelas mãos, levou-me até a porta. Vê bem esse azul, professora. Está escuro, bastante escuro. De noitinha teremos estrelas e de madrugada pode ser que chova um pouquinho, bem pouquinho. Ele narrava os humores dos céus como se estivesse a contar sua história favorita da primeira infância. Eu havia levado um texto de Mia Couto, escritor moçambicano que esteve entre as minhas leituras preferidas durante alguns anos: Não Sabemos Ler o Mundo. A crônica dizia sobre a nossa incapacidade de ler os espaços, as pessoas, o céu. Pedia, de modo poético e sutil, para desconsiderarmos o fato de que a única alfabetização possível eram a das palavras. "Falamos em ler e pensamos apenas nos livros, nos textos escritos. O senso comum diz que lemos apenas palavras. Mas a ideia de leitu...

“Agora você é oficialmente um O'Malley!”

Há pouco, comecei a assistir a série Grey's Anatomy e alguns diálogos começaram a ecoar dentro de mim. A situação aconteceu com Dr. George O'Malley, quando seus irmãos, juntos com o seu pai, vieram buscá-lo para cumprir uma antiga tradição: caçar, a céu aberto, um peru para a ceia do Dia de Ação de Graças. Sabendo que não havia outra saída, George seguiu com a família e, depois de algum esforço, realizou a caça. “Agora você é oficialmente um O'Malley!”, comemoraram - enquanto George parecia ainda não ver sentido algum naquilo tudo. Nas cenas onde George está com os irmãos, eles o têm como um tolo, como alguém capaz de sujeitar-se a qualquer coisa para estar dentro dos padrões de vida “O'Malley”. E ser um deles. Na sequência, o diálogo: - Pai, por que vocês nunca me tratam como um igual? - Filho, nossas vidas são diferentes da sua, somos do campo e você, um médico cirurgião. Nós o amamos, mas, definitivamente, você não é um de nós. Esse episódio me remeteu a um assunto q...

Seja forte e corajoso

Escrevo como quem escreve para um amigo que tem sonhos. E tem sonhos grandes, sonhos que só poderão ser vivenciados depois de aperfeiçoamentos e aprendizado de habilidades que requerem esforço. Então, pergunto: - Aonde você quer chegar? - E quando chegar lá, você seria capaz de manter suas conquistas? - Teria força suficiente para resistir a tempestades maiores do que as quais têm vivido hoje? Tenho conversado com pessoas que têm passado dificuldades em seus ambientes familiares, de trabalho e convivências. Pessoas que se chateiam por um comentário maldoso, por uma comparação desleal, por críticas e - até mesmo - por fofocas. E a pergunta, no final da conversa, quase sempre é a mesma: - O quanto essas dificuldades têm feito parte dos seus processos de aperfeiçoamento? O versículo que coloquei na imagem tem me acompanhado nos últimos anos e sempre que me deparo com uma situação difícil, leio-o [ e isso não envolve somente desgastes de relacionamentos, mas também cansaço, irritabilidade,...

Nada é óbvio

  Conversávamos sobre um filme francês; naquela época, um dos meus favoritos. Até então, como só havia conversado com pessoas que apreciavam aquele modelo de narrativa, não exitei em incentivar uma colega a assisti-lo: - #AmeliePoulain é realmente um filme fantástico! É ÓBVIO que você vai gostar! E, de repente, um ruído ao nosso redor. “ O que houve? ”, perguntei aos que estavam presentes. A resposta veio rapidamente: - Esse filme não é tudo isso. E essa personagem? Como ela é intrometida! Como alguém pode imaginar que tem o direito e o dever de afetar a vida dos outros daquela maneira?! - Concordo! Nunca entendi o motivo desse filme fazer tanto sucesso..._ replicou outra pessoa que ouvia a conversa. E foi assim que teve início uma longa discussão a respeito do tal filme. Confesso, eu estava em choque. Era muito difícil imaginar que alguém tinha uma visão tão diferente da minha a respeito de uma mesma história. Estava arrependida por ter utilizado a palavra “óbvio” de uma maneira t...