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Nada é óbvio

 




Conversávamos sobre um filme francês; naquela época, um dos meus favoritos.

Até então, como só havia conversado com pessoas que apreciavam aquele modelo de narrativa, não exitei em incentivar uma colega a assisti-lo:

- #AmeliePoulain é realmente um filme fantástico! É ÓBVIO que você vai gostar!

E, de repente, um ruído ao nosso redor.

“O que houve?”, perguntei aos que estavam presentes.

A resposta veio rapidamente:

- Esse filme não é tudo isso. E essa personagem? Como ela é intrometida! Como alguém pode imaginar que tem o direito e o dever de afetar a vida dos outros daquela maneira?!

- Concordo! Nunca entendi o motivo desse filme fazer tanto sucesso..._ replicou outra pessoa que ouvia a conversa.

E foi assim que teve início uma longa discussão a respeito do tal filme.

Confesso, eu estava em choque. Era muito difícil imaginar que alguém tinha uma visão tão diferente da minha a respeito de uma mesma história.

Estava arrependida por ter utilizado a palavra “óbvio” de uma maneira tão entusiasta.

Depois de algum tempo, percebi que as coisas não são tão óbvias quanto parecem.

Há sempre um emaranhado de raízes, uma junção de memórias e histórias que fazem com que as nossas percepções sejam diferentes, que as narrativas sobre um mesmo cenário possam ser contraditórias - e por isso exuberantes, ricas.

Dispor-se a ouvir o outro é muito mais do que compreender suas palavras, mas permitir que a sua construção, em sua integridade, seja lida, interpretada e acolhida.

O que faz sentido para mim, talvez, não faça sentido para você; para outro, talvez tenha um quê de sentimento. E, talvez, para uma terceira pessoa, tudo seja simplesmente azul.

Só é óbvio aquilo que não compreendemos e - mesmo assim! - decidimos dizer que interpretamos.


#escutatória #OutlierBe

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