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O menino que sabia ler o céu

 



O menino, que tinha menos de dez anos, deu um salto da cadeira ao mesmo momento que levantava uma das pequenas mãos:

Eu sei, professora! Eu sei ler o céu!

Como um ensaio de corrida, veio em minha direção e, puxando-me pelas mãos, levou-me até a porta.

Vê bem esse azul, professora. Está escuro, bastante escuro. De noitinha teremos estrelas e de madrugada pode ser que chova um pouquinho, bem pouquinho.

Ele narrava os humores dos céus como se estivesse a contar sua história favorita da primeira infância.

Eu havia levado um texto de Mia Couto, escritor moçambicano que esteve entre as minhas leituras preferidas durante alguns anos: Não Sabemos Ler o Mundo.

A crônica dizia sobre a nossa incapacidade de ler os espaços, as pessoas, o céu. Pedia, de modo poético e sutil, para desconsiderarmos o fato de que a única alfabetização possível eram a das palavras.

"Falamos em ler e pensamos apenas nos livros, nos textos escritos. O senso comum diz que lemos apenas palavras. Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo.(...)Tudo pode ser página."

Naquele dia, havia em torno de trinta e poucos alunos, e todos o ouviam com atenção.

Quem te ensinou a ler o céu? _ perguntei.

Erguendo os ombros e estufando o peito, olhou para os seus colegas e respondeu:

Minha avó, professora. Ela nunca pode ir a uma escola, começou a trabalhar cedo com a terra e sustentou toda a família plantando e colhendo. Foi ela quem me ensinou. Ela ainda não sabe ler papel professora, mas sabe sobre o céu, sobre as cores do céu, sobre a lua e sobre as estrelas.

Sorri. Estávamos encantados com a sabedoria e conhecimento de uma senhora que nunca teve oportunidade de ter um diploma ou compreender os escritos nos muros e nos livros.

Acredito que ninguém dentro daquela sala algum dia se sentirá superior a alguém que não tenha diplomas ou a capacidade de ler livros.

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